Um "blog sujo" desde 2 de setembro de 2009.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Os jornais, a democracia e a ditadura do mercado – a cobertura das eleições presidenciais de 2002 - Inês Nassif
Este ansioso blogueiro considera Maria Inês Nassif a melhor analista de política de um jornal do PiG (*).
Surpreendentemente, ela sobreviveu à ofensiva do Padim Pade Cerra e sobreviveu no Valor (que, como se sabe, é controlado pela Folha (**) e pelo Globo).
Como se sabe, este ansioso blogueiro considera Cerra o nosso Putin.
Putin lidera um Governo em que, por coincidência, jornalistas de oposição costumam aparecer com a boca cheia de formiga em ruas de Moscou.
Além do mais, Inês é uma estudiosa do PiG.
Em 2005, ela obteve o título de Mestre em Ciências Sociais, na área de Ciência Política, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Com a dissertação “Os jornais, a democracia e a ditadura do mercado – a cobertura das eleições presidenciais de 2002.”
Com a agudeza de um médico legista – afinal, trata-se de um cadáver insepulto, o PiG - ela mostra como a Folha (**) e o Estadão trabalharam para eleger Cerra em 2002 e ajudar os bancos.
E o que é igualmente sinistro, operavam o “mercado” – aquele da “mão invisível” – em benefício dos “mercadores” e do Cerra.
O PiG jogou o jogo da especulação financeira que os banqueiros instalaram no Brasil com a ameaça da eleição do Presidente Nunca Dantes.
Inês trata com especial atenção (pág. 184) uma histórica entrevista que colonista (***) da Folha, Clovis Rossi, fez, no dia 8 de junho de 2002, com George Soros.
(Soros tinha sido o patrão do presidente do Banco Central da época, Arminio Fraga, quindim de Iaiá do PiG).
O notável financista fazia previsões apocalípticas: o Brasil estava condenado a eleger Serra ou mergulhar no caos.
Rossi esclarecia: “Não se trata desta vez, apenas, da habitual má vontade do mundo financeiro em relação a Lula e ao PT. É muito pior: trata-se de uma análise fria de como se mexem as engrenagens do capitalismo financeiro global, de que Soros não é apenas perito, mas também um ativo agente.”
“Se Serra ganhasse a eleição, afirmou (Soros), a situação mudaria, porque ‘o capitalismo global não se arriscaria a inviabilizar o melhor aluno do modelo econômico hegemônico (Serra)’.”
E concluiu Soros, nessa histórica reportagem da Folha: “Na Roma antiga só votavam os romanos. No capitalismo global moderno, só votam os americanos, os brasileiros não votam”.
Memorável.
Rossi foi testemunha da História.
Inês utiliza essa reportagem para mostrar, de forma conspícua, como os colonistas da Folha e do Estadão desempenharam “o papel de intelectuais orgânicos do capital financeiro internacional … na formação de uma hegemonia ideológica fundamentalista pró-mercado e no questionamento do papel do Estado – aqui, o moderno era a redução ao Estado Mínimo, que exerceria o papel regulador da economia”.
Inês mostra como o PiG disseminou o pânico, o que teve o efeito de provocar “um rápido deslocamento do dinheiro do país, em função do ataque especulativo ao Real, e rápidos deslocamentos de dinheiro entre particulares … Os jornais, portanto, foram instrumento da acumulação do capital financeiro … a informação passa a ser um instrumento da acumulação … intelectuais orgânicos (os colonistas do PiG – PHA) alimentam as mesas de operação … O boato e a especulação acabam tornando-se fatos.”
Os dois jornais – Folha e Estadão – jogaram o “jogo declaratório”, da informação sem contexto, irresponsável, não confirmada, não checada.
O jornalismo do “disse que”.
O economista do banco tal “diz que …”; o ex-diretor do FMI; o sub-do-sub da Secretaria do Tesouro americano.
Todos eles dizem que haveria o caos se Lula fosse eleito – o PiG e eles são cadeia de transmissão do pânico.
E as mesas dos bancos se enchem de dinheiro.
(O André Esteves, que acaba de comprar o PanAmericano, poderia dar um interessante testemunho sobre como o Banco Pactual “sofreu” com a eleição do Lula em 2002.)
E o Cerra “subia” nas pesquisas (na margem de erro, na verdade).
A Folha, segundo Inês, é especialista em “sensacionalização da declaração”.
O Estadão é mais despudorado: “a opção ideológica e partidária do jornal invadiu a informação, principalmente na economia.”
O PiG venceu ?
Não, Lula ganhou.
O “pânico” derrotou os operadores e os colonistas.
Mas, o PiG venceu, também, diz a Inês.
Lula oficializou a candidatura em 29 de junho de 2002.
Antes, no dia 22, lançou a “Carta ao Povo brasileiro”, “adequando-se às exigências do mercado”, diz Inês.
Ou seja, o PiG venceu: nomeou Tony Palocci Ministro da Fazenda (diz este ansioso blogueiro).
Inês faz uma pincelada sobre a eleição de 2006, aquela que Ali Kamel levou para o segundo turno – clique aqui para ler “O Golpe do primeiro turno já houve. Falta o do segundo turno”.
Em 2006, Lula não poderia ser mais o bicho papão do mercado.
O PiG jogou então a carta do preconceito social.
Lula era o candidato dos pobres, da Bolsa Vagabundagem (segundo a opinião de uma especialista em abortos, no Chile), dos nordestinos.
“O corte ideológico (em 2006) foi fundamentalmente social”.
Conclui Inês: “ … o momento zero, em que os jornais se assumiram claramente como intelectuais orgânicos foi o da eleição de 2002”.
Como diz esse ansioso blogueiro: o que seria dos tucanos de São Paulo não fosse o PiG, hein, Inês ?
Não passavam de Resende.
Em tempo: por que a editora Publifolha não publica a tese da Inês. E a Companhia das Letras ?
Paulo Henrique Amorim
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sábado, 29 de janeiro de 2011
Lula, o mito
"Existem pessoas que conseguem ascender socialmente. Em geral, saem da classe social baixa e se adaptam à nova classe. Deixam um lugar para ocupar outro. Mas com o Lula foi diferente: ele ocupa os dois lugares. Ele tem orgulho de ser o incluído e ao mesmo tempo o orgulho de ser o superexcluído. Isso dá um nó na cabeça da elite. Lula constrói espaço novo, a partir da comunicação direta com a população. Do ponto de vista simbólico, ele quebra paradigmas e modelos o tempo todo."
Denise Paraná, autora de "Lula, o Filho do Brasil"
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Advogados da turma do ECAD caçam o Creative Commons
De Carta Maior
Sergio Amadeu: "Ana de Holanda e ECAD atacam política de Lula"
O movimento de software livre, de recursos educacionais abertos e os defensores da liberdade e diversidade cultural votaram em Dilma pelos compromissos que ela afirmou em defesa do bem comum. No mesmo dia que a Ministra Ana de Holanda atacou o Creative Commons retirando a licença do site, a Ministra do Planejamento Miriam Belquior publicou a normativa que consolida o software livre como a essência do software público que deve ser usada pelo governo. É indiscutível o descompasso que a Ministra da Cultura tem em relação à política de compartilhamento do governo Dilma. O artigo é de Sergio Amadeu da Silveira.
Sergio Amadeu da Silveira (*)
Os defensores da indústria de intermediação e advogados do ECAD lançam um ataque a política de compartilhamento de conhecimento e bens culturais lançada pelo presidente Lula. Na sua jornada contra a criatividade e em defesa dos velhos esquemas de controle da cultura, chegam aos absurdos da desinformação ou da mentira.
Primeiro é preciso esclarecer que as licenças Creative Commons surgiram a partir do exemplo bem sucedido do movimento do software livre e das licenças GPL (General Public Licence). O software livre também inspirou uma das maiores obras intelectuais do século XXI, a enciclopédia livre chamada Wikipedia. Lamentavelmente, os lobistas do ECAD chegam a dizer que a Microsoft apóia o software livre e o movimento de compartilhamento do conhecimento.
Segundo, o argumento do ECAD de que defender o Cretaive Commons é defender grandes corporações internacionais é completamente falso. As grandes corporações de intermediação da cultura se organizam e apóiam a INTERNATIONAL INTELLECTUAL PROPERTY ALLIANCE® (IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional) e que é um grande combatente do software livre e do Creative Commons. O Relatório da IIPA de fevereiro de 2010 ataca o Brasil, a Malásia e outros países que usam licenças mais flexíveis e propõem que o governo norte-americano promova retaliações a estes países.
Terceiro, a turma do ECAD desconsidera a política histórica da diplomacia brasileira de luta pela flexibilização dos acordos de propriedade intelectual que visam simplesmente bloquear o caminho do desenvolvimento de países como o Brasil. Os argumentos contra as licenças Creative Commons são tão rídiculos como afirmar que a Internet e a Wikipedia é uma conspiração contra as enciclopédias proprietárias, como a Encarta da Microsoft ou a Enciclopédia Britânica.
Quarto, o texto do maestro Marco Venicio Andrade é falso até quando parabeniza a presidente Dilma por ter "restabelecido a soberania de nossa gestão cultural, anulando as medidas subservientes tomadas pelos que, embora parecendo modernos e libertários, só queriam mesmo é dobrar a espinha aos interesses das grandes corporações que buscam monopolizar a cultura". O blog do Planalto lançado pelo presidente Lula e mantido pela presidente Dilma continua com as licenças Creative Commons. Desse modo, os ataques que o defensor do ECAD fez a política dos commons lançada por Gilberto Gil, no MINC, também valem para a Presidência da República.
Quinto, o movimento de software livre, de recursos educacionais abertos e os defensores da liberdade e diversidade cultural votaram em Dilma pelos compromissos que ela afirmou em defesa do bem comum. No mesmo dia que a Ministra Ana de Holanda atacou o Creative Commons retirando a licença do site, a Ministra do Planejamento Miriam Belquior publicou a normativa que consolida o software livre como a essência do software público que deve ser usada pelo governo. É indiscutível o descompasso que a Ministra da Cultura tem em relação à política de compartilhamento do governo Dilma.
(*) Sergio Amadeu da Silveira é professor da UFABC. Sociólogo e doutor em Ciência Política. Foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e primeiro coordenador do Comitê Técnico de Implementação do Software Livre na gestão do presidente Lula.
Sergio Amadeu: "Ana de Holanda e ECAD atacam política de Lula"
O movimento de software livre, de recursos educacionais abertos e os defensores da liberdade e diversidade cultural votaram em Dilma pelos compromissos que ela afirmou em defesa do bem comum. No mesmo dia que a Ministra Ana de Holanda atacou o Creative Commons retirando a licença do site, a Ministra do Planejamento Miriam Belquior publicou a normativa que consolida o software livre como a essência do software público que deve ser usada pelo governo. É indiscutível o descompasso que a Ministra da Cultura tem em relação à política de compartilhamento do governo Dilma. O artigo é de Sergio Amadeu da Silveira.
Sergio Amadeu da Silveira (*)
Os defensores da indústria de intermediação e advogados do ECAD lançam um ataque a política de compartilhamento de conhecimento e bens culturais lançada pelo presidente Lula. Na sua jornada contra a criatividade e em defesa dos velhos esquemas de controle da cultura, chegam aos absurdos da desinformação ou da mentira.
Primeiro é preciso esclarecer que as licenças Creative Commons surgiram a partir do exemplo bem sucedido do movimento do software livre e das licenças GPL (General Public Licence). O software livre também inspirou uma das maiores obras intelectuais do século XXI, a enciclopédia livre chamada Wikipedia. Lamentavelmente, os lobistas do ECAD chegam a dizer que a Microsoft apóia o software livre e o movimento de compartilhamento do conhecimento.
Segundo, o argumento do ECAD de que defender o Cretaive Commons é defender grandes corporações internacionais é completamente falso. As grandes corporações de intermediação da cultura se organizam e apóiam a INTERNATIONAL INTELLECTUAL PROPERTY ALLIANCE® (IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional) e que é um grande combatente do software livre e do Creative Commons. O Relatório da IIPA de fevereiro de 2010 ataca o Brasil, a Malásia e outros países que usam licenças mais flexíveis e propõem que o governo norte-americano promova retaliações a estes países.
Terceiro, a turma do ECAD desconsidera a política histórica da diplomacia brasileira de luta pela flexibilização dos acordos de propriedade intelectual que visam simplesmente bloquear o caminho do desenvolvimento de países como o Brasil. Os argumentos contra as licenças Creative Commons são tão rídiculos como afirmar que a Internet e a Wikipedia é uma conspiração contra as enciclopédias proprietárias, como a Encarta da Microsoft ou a Enciclopédia Britânica.
Quarto, o texto do maestro Marco Venicio Andrade é falso até quando parabeniza a presidente Dilma por ter "restabelecido a soberania de nossa gestão cultural, anulando as medidas subservientes tomadas pelos que, embora parecendo modernos e libertários, só queriam mesmo é dobrar a espinha aos interesses das grandes corporações que buscam monopolizar a cultura". O blog do Planalto lançado pelo presidente Lula e mantido pela presidente Dilma continua com as licenças Creative Commons. Desse modo, os ataques que o defensor do ECAD fez a política dos commons lançada por Gilberto Gil, no MINC, também valem para a Presidência da República.
Quinto, o movimento de software livre, de recursos educacionais abertos e os defensores da liberdade e diversidade cultural votaram em Dilma pelos compromissos que ela afirmou em defesa do bem comum. No mesmo dia que a Ministra Ana de Holanda atacou o Creative Commons retirando a licença do site, a Ministra do Planejamento Miriam Belquior publicou a normativa que consolida o software livre como a essência do software público que deve ser usada pelo governo. É indiscutível o descompasso que a Ministra da Cultura tem em relação à política de compartilhamento do governo Dilma.
(*) Sergio Amadeu da Silveira é professor da UFABC. Sociólogo e doutor em Ciência Política. Foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e primeiro coordenador do Comitê Técnico de Implementação do Software Livre na gestão do presidente Lula.
Rede Globo envia helicótero sem blindagem para cobrir operação policial e quase provoca uma tragédia
Hoje pela manhã uma operação da Polícia Civil com mais de 150 policiais invadiu os morros da Mineira, no Catumbi, e do Zinco, São Carlos e Querosene, no Estácio. Houve intenso tiroteio. Uma equipe da Rede Globo, no helicóptero conhecido como Globocop, sobrevoava o local para conseguir imagens, quando foi atingida por disparos. Danificada, a aeronave, graças à habilidade do piloto, conseguiu chegar ao Aeroporto de Jacarepaguá e aterrissar sem vítimas. Felizmente, os três tiros não atingiram áreas críticas do helicóptero e o piloto conseguiu salvar-se e à equipe. Ou então estaríamos lamentando a morte de todos.
De quem é a responsabilidade? Dos traficantes? Da polícia, que invadiu o território deles? Ou da Rede Globo, que envia uma equipe num helicóptero sem blindagem (o da Polícia Civil que controlava a operação era blindado) a uma área conflagrada, mesmo sabendo que bandidos já derrubaram um helicóptero da polícia não blindado no Rio, no final de 2009?
Bom, aí teríamos mais um caso Tim Lopes, quando toda a culpa do acontecido caiu sobre os traficantes (cruéis assassinos de Tim), mas nada se falou sobre a responsabilidade da Rede Globo. A emissora deixou que o repórter voltasse ao Complexo do Alemão, embora seu rosto tenha sido exposto para todo o Brasil como o homem que ganhou o Prêmio Esso na categoria Telejornalismo,
com uma reportagem exibida no Fantástico denunciando o tráfico de drogas no... Complexo do Alemão.
Confira esses trechos que selecionei de uma entrevista com o jornalista Mario Augusto Jakobskind, na ocasião do lançamento de seu livro Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope, no final de 2003. A íntegra da entrevista, realizada por Ana Carolina Diniz, está aqui.
O que é o Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope?
Mário Augusto Jakobskind – Trata-se de uma profunda investigação transformada em extensa reportagem que não caberia num espaço de jornal ou revista – e por isso é um livro reportagem – sobre um triste episódio de violência urbana ocorrido no Rio de Janeiro, em 2002, e que vitimou o repórter da TV Globo Tim Lopes. Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope mostra, através de pesquisas e depoimentos, o que levou ao assassinato por um bando de delinquentes vinculados ao tráfico de drogas. Há no livro um capítulo específico sobre o crime organizando que ajuda também a entender o caso Tim Lopes. Na época prevaleceu uma única versão – na prática, a versão oficial da maior emissora de TV do Brasil, tendo a mídia de um modo geral, com raras e honrosas exceções, omitido inúmeras questões, o que remete a um outro tipo de discussão.
Como assim?
M.A.J. – O caso Tim Lopes é um exemplo concreto de como funciona o esquema do pensamento único. Ou seja, através de um fato você apresenta ao leitor ou telespectador a "única verdade", simplesmente ignorando outros eventuais questionamentos que colocam em dúvida a versão oficial. Tendo como carro-chefe a Rede Globo, a opinião pública só foi informada sobre o assassinato de Tim Lopes no que interessava à emissora. Diretores da "Vênus Platinada" saíram em campo de uma forma avassaladora, vendendo a "verdade". Até mesmo na área sindical dos jornalistas, esses mesmos diretores, que antes da tragédia nunca chegaram a passar por perto da sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, que dirá entrar, participavam ativamente das mobilizações relativas ao episódio e de assembleias. A direção sindical, ao invés de se posicionar de forma isenta, aceitando pelo menos examinar as colocações que questionavam o procedimento da TV Globo, simplesmente fechou questão em torno da versão da emissora. Ficou parecendo que houve uma espécie de permuta, ou seja, transmitir a verdade da Globo em troca de cinco minutos de fama... Nunca o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro apareceu tanto na tela da Globo como a partir daquele episódio.
Como começou a história do caso que resultou no assassinato de Tim Lopes?
M.A.J. – A emissora designou Cristina Guimarães e Tim Lopes para fazerem reportagens sobre uma "feira de drogas" em favelas da cidade. Cristina cuidou da Rocinha e da Mangueira. Tim Lopes ficou encarregado do Complexo do Alemão, onde pouco tempo depois ocorreria o seu assassinato pelo bando chefiado por um tal de Elias Maluco. As reportagens foram ao ar, isso no segundo semestre de 2001, provocando grande indignação por parte dos traficantes porque muitos foram presos e o lucro do comércio ilegal foi afetado. Tim Lopes e Cristina Guimarães viraram um alvo dos narcotraficantes que queiram vingança. Cristina Guimarães passou a receber "recados" dos bandidos. Pediu proteção à Globo – não tendo, segundo ela, sido atendida. Em determinado momento, Cristina tomou a decisão de se proteger. Chegou até a sair do país e ao voltar ficou afastada do mercado de trabalho, o que acontece até hoje. A TV Globo nega a versão da jornalista e tentou a todo momento desqualificar a repórter.
Você acha que o Prêmio Esso recebido por Tim Lopes acabou selando a sentença de morte do jornalista?
M.A.J. – Tim Lopes foi o primeiro ganhador deste prêmio na categoria de telejornalismo. Ao receber o prêmio, em dezembro de 2001, a emissora em que trabalhava o apresentou publicamente em todos os noticiários. Uma das condições para quem faz jornalismo investigativo é se manter no anonimato. Quando sua imagem foi conhecida, a condição de jornalista investigativo deveria ser deixada de lado. Mas ele continuou e foi escalado para ir à Vila Cruzeiro, supostamente para cobrir um baile funk, onde, segundo a Globo, se praticava sexo explícito. A Globo diz que Tim Lopes apresentou a pauta, enquanto a viúva Alessandra Wagner garante que os planos dele eram deixar de lado as reportagens arriscadas, como a que foi escalado para fazer. O livro mostra tudo isso e apresenta também algumas contradições nos depoimentos de diretores da Globo, que uma hora falavam uma coisa e depois, outra. Quem ler com atenção os depoimentos e entrevistas vai verificar facilmente que muita coisa que foi dita não resiste a uma mínima análise. Posso dar um exemplo. Um dos diretores da Globo chegou a afirmar que um turista de Cuiabá viu a hora em que Tim Lopes foi "preso" pelos traficantes no baile funk, dando a entender até que teria filmado o momento. Pois bem: ele teria procurado a Globo e depois desapareceu como por encanto. Então, onde está este personagem que poderia ser uma figura-chave para o esclarecimento definitivo do caso? Ninguém sabe, ninguém cobrou a presença. Ficou tudo por isso mesmo. Por que então a TV Globo não apresentou essa testemunha que poderia ajudar a elucidar o episódio?
Há outros casos como esse apresentado no livro. Uma chefe de reportagem da regional carioca disse que Tim se apresentava na favela com um nome fictício de Ricardo. Já um dos diretores garantiu que Tim estava na favela como jornalista e a serviço da comunidade carioca. Quem ler Dossiê Tim Lopes – Fantástico/Ibope verá que outras tantas contradições existem, mas faltou talvez vontade política para se aprofundar o caso. Tanto se fala em jornalismo investigativo mas, nesse caso, perdeu-se uma grande oportunidade para a prática desse gênero.
Como surgiu a ideia de escrever o livro?
M.A.J. – Desde o início acompanhei o caso e justamente tive a atenção despertada pelo procedimento incomum da direção da Globo. No primeiro ato público dos jornalistas cariocas, antes mesmo de se confirmar a morte de Tim Lopes, um dos jornalistas contestou o que se colocava nos discursos tirando qualquer responsabilidade da TV Globo no caso. Não precisava ser nenhum gênio, ou super repórter, para perceber que havia algo errado. Este mesmo jornalista, Osvaldo Maneschy, foi praticamente impedido de falar numa assembleia sindical. Cristina Guimarães foi "linchada" e apresentada como maluquete ou porra-louca, quando o único "crime" que cometia era o de contar o que tinha acontecido com ela e questionar uma verdade que isentava a Globo de culpa. Pouco a pouco fui aprofundando o tema. Colhi vários depoimentos e li muita coisa sobre o caso Tim Lopes. Silenciar ou deixar correr sem reunir as informações que obtive seria um verdadeiro desserviço ao jornalismo. Jornalistas que procuram estar bem com as suas consciências não podem omitir esses fatos, mesmo que encontrem dificuldades para divulgá-los.
No final do ano passado, logo após a polícia ter retomado o Complexo do Alemão, a mãe de Tim Lopes declarou, em reportagem publicada pelo Terra:
"Foi uma injustiça muito grande o que fizeram com meu filho. mandaram-no para a favela se virar sozinho, sabendo do risco que corria."
A presidenta do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro Suzana Blass, na mesma reportagem do Terra, disse que "A chefia de reportagem da TV Globo não avaliou os riscos antes de permitir que Tim viesse para o Alemão. Foi muito ingênua, não teve a dimensão do perigo".
E agora, o que o Sindicato tem a dizer sobre o incidente com o Globocop? Ou será preciso uma nova morte?
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Os Nardoni do Rio de Janeiro (ou protegidos da Globo??)
Acabei de tomar conhecimento do caso da menina Joanna através do ótimo blog Táxi em Movimento
Infelizmente, mais uma vez a mídia demonstra a sua parcialidade..
Para O Globo, a menina morreu de meningite, e o caso não teve 0,1% da repercussão do caso dos Nardoni.. essa mídia não pode se arvorar o título de Quarto Poder porque não tem a mínima isenção para exercer qualquer função pública
Será que poderemos colocar o Poder Judiciário, o falso médico, o pastor evangélico, o ex-deputado do PT, Antônio Carlos Biscaia, defensor dos direitos humanos dos outros, psicólogas e membros do Ministério Público no banco dos réus??
Entre todos esses, não houve uma alma sensata que pudesse evitar o homicídio da criança..
Encontrei os seguintes textos na internet e os editei à minha maneira.. quem quiser pode fazer sua própria pesquisa no google.
Da ISTOÉIndependente
A triste história da morte de uma menina de 5 anos, vítima da briga dos pais, do Poder Judiciário e de um falso médico
Eliane LobatoFIM
Joanna era uma garota saudável que adorava a Branca de Neve. Foi enterrada com sua fantasia favorita
“Toda mãe sonha ver o nome do filho em um diploma. Infelizmente, eu vi o nome da minha filhinha num atestado de óbito.” As palavras, entremeadas por choro, saem da boca de Cristiane Cardoso Marcenal, mãe de Joanna Marcenal Marins, que morreu na sexta-feira 13 de causa ainda não definida (o laudo ficará pronto em um mês, aproximadamente) e com o corpo cheio de escoriações, queimadura e cortes. A mãe chora pela perda da filha, de 5 anos, e pelo futuro que nunca virá. “Não vamos comemorar sua formatura, não teremos o prazer de brincar na neve, como ela tanto queria, não terei netos dela. Não sei como vou conseguir continuar vivendo”, diz Cristiane, muito emocionada. A garotinha que calçava sapatinhos cobertos por paetês e dormia em uma cama com dorsel feito pela avó materna para que se sentisse uma princesa, foi enterrada com seu vestidinho preferido, o de Branca de Neve. “Fiz questão de vestir minha filha com a roupinha que mais amava”, diz a mãe, destroçada diante da irreversibilidade da morte.
Agora, Joanna virou um processo na Justiça, já com mais de 200 páginas. Está em apuração se ela sofreu maus-tratos enquanto estava sob a guarda paterna, a causa da morte e de quem é a responsabilidade – entre pai, mãe e Poder Judiciário. A menina foi a parte mais fraca da briga de gente grande à sua volta. E pagou com a vida por isso. Sua curta história envolve animosidade entre os pais, boletins de ocorrência policial por espancamento entre o pai biológico e a madrasta e também da mãe contra o pai biológico por maus-tratos contra a própria filha. A menina ainda teve mais uma infelicidade: ao ser levada desacordada para a emergência do hospital RioMar, na Barra da Tijuca, no dia 19 de julho, foi atendida por um falso médico, o estudante de medicina Alex Sandro de Cunha Souza, 33 anos, atualmente foragido. Liberada, ela passou mal de novo e, quando voltou à outra emergência, de outro hospital, já mergulhara no coma que durou quase um mês.
As desavenças em torno de Joanna começaram antes de seu nascimento. Seus pais, o advogado e técnico judiciário André Rodrigues Marins, 41 anos, e a médica Cristiane, 37, são evangélicos e se conheceram em 2003 numa Igreja Batista, no Recreio, bairro no qual ambos moravam, no Rio de Janeiro. Namoraram por aproximadamente seis meses. Quando o relacionamento acabou, Cristiane estava grávida, mas não sabia. O casal nunca chegou a viver junto. André não gostou de saber que seria pai. Cristiane resolveu que assumiria sozinha a criança. Nessa época, André mostrou seu temperamento explosivo e pela primeira vez bateu em Cristiane. “Ele me ligou, disse que ia se matar, falou um monte de coisas, pediu para eu ir à casa dele. Fui. Quando cheguei lá, me surrou, apesar de eu estar grávida.” Procurado por ISTOÉ, André não respondeu às ligações. Seu advogado, Luiz Guilherme Vieira, disse que ninguém da parte dele falaria sobre o caso. E arrematou: “O André sofreu muito com o processo de internação e agora com o luto pela morte da menina.”
Quando a garota nasceu, em outubro de 2004, a mãe avisou-o e ele foi conhecê-la. Nessa época, ele já estava casado com a atual mulher, Vanessa Maia Furtado, então grávida do primeiro filho. Nos dois primeiros anos de vida, Joanna praticamente não viu o pai. Em março de 2007, Cristiane se casou com Ricardo Tostes, 46 anos, pastor da igreja Batista, e André reapareceu logo depois. “Ele pegava a filha num fim de semana, sumia três, aparecia depois”, afirma a mãe. Até que, em 14 de outubro do mesmo ano, aconteceu um fato novo – e policial.
DOR
Cristiane, a mãe, e Ricardo, o padrasto: devastados com a perda e revoltados com a Justiça
Neste dia, Joanna voltou da casa de André machucada, segundo a mãe, fato comprovado por laudo do Instituto Médico Legal. Primeiro, Cristiane levou-a a um hospital perto de casa, a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, em Nova Iguaçu. No prontuário, a médica plantonista sugere que seja feito exame de corpo de delito. Todo o episódio foi documentado na delegacia e levado para a juíza Cláudia Nascimento Vieira, da 1ª Vara de Família de Nova Iguaçu. Ela proibiu a visitação do pai biológico até que se apurasse a suspeita de maus-tratos. Dois meses depois, em janeiro de 2008, devolveu os direitos de visita a André. Mas, segundo depoimentos de conhecidos da família que pedem para não ser identificados, ele novamente sumiu. Ricardo, o padrasto de Joanna, entrou, então, com pedido de adoção e obteve a guarda da menina. André nunca questionou ou reclamou disso. “A Joaninha era como uma filha para mim”, disse Ricardo.
Em dezembro de 2009, André reapareceu e os enfrentamentos voltaram. Em fevereiro deste ano, ele conseguiu a reversão da guarda, dada pela mesma juíza Cláudia, que também proibiu a mãe de fazer qualquer contato com a menina durante os 90 dias em que ela ficaria com o pai. A juíza baseou-se no laudo das psicólogas Roberta M.N.Ferreira de Carvalho e Vânia Sueli Mafra Aniz, da mesma Vara de Família, alegando alienação parental (quando um dos pais joga o filho contra o outro). Assim, a menina saiu chorando desesperadamente do colo da mãe, e foi entregue ao pai no dia 26 de maio. Foi a última vez que a mãe viu a filha com saúde. Embora André tenha dito que a filha fora entregue com problemas, a babá de Joanna, Maria Aparecida de Andrade Brandão, declarou, em depoimento, que deu “o último banho na menina antes de ser entregue ao pai e que a criança não tinha nenhuma marca no corpo”.
VIOLÊNCIA
Vanessa, a madrasta, e André, o pai, colecionam episódios de agressão,
devidamente registrados em delegacias
“Quando vi o laudo das psicólogas, achei que era retaliação porque eu reclamara na Corregedoria que elas tinham me tratado de forma hostil”, diz Cristiane. “Depois, me lembrei que o André dizia ter uma tia promotora e que ela ‘iria dar um jeito’.” André é sobrinho de Maria Helena Biscaia, mulher do ex-deputado federal Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ). “Não sei se ele usava o nome deles indevidamente”, diz Cristiane. A mãe se revolta ao questionar o Judiciário: “Não ouviram a Joanna, não ouviram minha família, só os pais dele e a mulher dele.” Isso, apesar de haver boletins policiais relatando a violência de André e Vanessa, a madrasta de Joanna. Num deles, André diz que a mulher tinha quebrado uma cadeira em sua cabeça porque não queria que Joanna fosse para a casa deles. Em outro, Vanessa conta que, ainda grávida, teria levado socos de André. Há também, segundo Cristiane, outro registro policial de agressão de André contra sua primeira mulher, Gleide Abreu Afonso (ex-Marins).
“Essa juíza disse que não tinha nada no processo desses boletins. Me deu nojo, me deu vontade de vomitar”, diz Cristiane, novamente aos prantos. Ela recorda sua última conversa com Joanna. “Eu disse a ela: ‘Filha, a juíza ordenou que você tem que ficar com papai André por 90 dias. Depois, a mamãe pega você de novo, tá?’ Ela disse: “Não chora mais, mamãe. Agora você vai ficar com dois filhinhos só porque ele falou pra mim que não volto mais.” Cristiane tem mais dois filhos do casamento com Ricardo. “Joanna foi vítima do Judiciário. A juíza a tirou de dentro de casa e entregou-a para ser morta”, disse ela.
O resto, todos já sabem. O pai diz que a menina teve crises convulsivas devido a problemas neurológicos. Mas o pediatra da garota, Vanderlei Porto, nega: “A Joanna sempre foi supersaudável e normal. Ela nunca teve convulsão e não tomava remédio anticonvulsivo.” Da mesma forma, a professora da menina, na escola Objetivo, de Campos do Jordão (SP), descarta qualquer distúrbio emocional ou físico. “Ela nunca teve nada. Se tivesse algum problema, não seria possível esconder da escola, onde passava tanto tempo”, disse à ISTOÉ a professora Luciana de Oliveira Santos.
CRIME
O falso médico Alex Sandro de Cunha Souza, que atendeu Joanna
quando ela chegou desacordada ao hospital e a liberou
A mãe diz ter sido informada pelo delegado Luiz Henrique Marques Pereira, da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), que, no depoimento, André relatou que a filha se autoflagelava. “Tanto que ele pôs luva nela, passou fita crepe na luva e amarrou as mãozinhas na cama para que não se machucasse. Como pôde fazer isso?”, questiona Cristiane. Médica, ela também não consegue aceitar que a filha tenha sido atendida por um falsário. “A Joanna passou pelas mãos de um cara que não era médico. Isso não teria acontecido se o pai tivesse me ligado. Eu teria arrumado um médico decente para cuidar dela”, chora. E reza: “Só Deus para me ajudar a sobreviver agora. Deus e minha família.”
Colaborou Luciani Gomes
Seguem algumas reportagens a este respeito:
1 - SRZD | Caso Joanna Marins: a segurança da infância no CTI ...
26 jul. 2010 ... Logo depois, acompanhada pelo padrasto, Joanna Cardoso Marcenal Marins foi entregue ao pai, André Rodrigues Marins, na 5ª Vara de Família da ...
www.sidneyrezende.com/.../ 95072+caso+joanna+marins+a+ seguranca+da+infancia+no+cti-http://www.sidneyrezende.com/ noticia/95072+caso+joanna+ marins+a+seguranca+da+ infancia+no+cti
2 - Menina com hematomas no corpo não teve morte cerebral, diz médico ...
22 jul. 2010 ... A mãe da menina, a médica Cristiane Cardoso Marcenal Ferraz, acusa o pai de Joanna, o advogado André Rodrigues Marins, de maus tratos. ...
ultimosegundo.ig.com.br/.../ n1237725170626.html http://ultimosegundo.ig.com. br/brasil/rj/menina+com+ hematomas+no+corpo+nao+teve+ morte+cerebral+diz+medico/ n1237725170626.html
3 - Anjos e Guerreiros: Delegado diz que menina de cinco anos foi ...
24 jul. 2010... hematomas e a queimadura nas nádegas da menina Joanna Cardoso Marcenal Marins, de 5 anos, já tem certeza de que ela sofreu maus-tratos. ...
4 - Médico diz que menina de cinco anos internada no Rio de Janeiro ...
21 jul. 2010 ... A mãe de Joanna Cardoso Marcenal Marins, a médica Cristiane Cardoso Marcenal Ferraz, diz que o ex-marido e pai de Joanna, o advogado André ...
5 - Criança de 5 anos vítima de maus tratos, em coma
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Uma coisa estranha aconteceu na noite passada em Natal (Miguel Nicolelis)
por Miguel Nicolelis*, especial para o Viomundo
Desde que cheguei ao Brasil, há duas semanas, eu vinha sentindo uma sensação muito estranha. Como se fora acometido por um ataque contínuo da famosa ilusão, conhecida popularmente como déjà vu, eu passei esses últimos 15 dias tendo a impressão de nunca ter saído de casa, lá na pacata Chapel Hill, Carolina do Norte, Estados Unidos.
Mas como isso poderia ser verdade? Durante esse tempo todo eu claramente estava ou São Paulo ou em Natal. Todo mundo ao meu redor falava português, não inglês. Todo mundo era gentil. A comida tinha gosto, as pessoas sorriam na rua. No aeroporto, por exemplo, não precisava abrir a mala de mão, tirar computador, tirar sapato, tirar o cinto, ou entrar no scan de corpo todo para provar que eu não era um terrorista. Ainda assim, com todas essas provas evidentes de que eu estava no Brasil e não nos EUA, até no jogo do Palmeiras, no meio da imortal “porcada”, a sensação era a mesma: eu não saí da América do Norte! Mesmo quando faltou luz na Arena de Barueri durante o jogo, porque nem a 25 km da capital paulista a Eletropaulo consegue garantir o suprimento de energia elétrica para um prélio vital do time do coração do ex-governador do estado (aparentemente ninguém vai muito com a cara dele na Eletropaulo. Nada a ver com o Palmeiras), eu consegui me sentir à vontade.
Custou-me muito a descobrir o que se sucedia.
Porém, ontem à noite, durante o debate dos candidatos a Presidência da República na Rede Record, uma verdadeira revelação me veio à mente. De repente, numa epifania, como poucas que tive na vida, tudo ficou muito claro. Tudo evidente. Não havia nada de errado com meus sentidos, nem com a minha mente. Havia, sim, todo um contexto que fez com que o meu cérebro de meia idade revivesse anos de experiências traumatizantes na América do Norte.
Pois ali na minha frente, na TV, não estava o candidato José Serra, do PSDB, o “partido do salário mais defasado do Brasil”, como gostam de frisar os sofridos professores da rede pública de ensino paulistana, mas sim uma encarnação perfeita, mesmo que caricata, de um verdadeiro George Bush tropical. Para os que estão confusos, eu me explico de imediato. Orientado por um marqueteiro que, se não é americano nato, provavelmente fez um bom estágio na “máquina de moer carne de candidatos” em que se transformou a indústria de marketing político americano, o candidato Serra tem utilizado todos os truques da bíblia Republicana. Como estudante aplicado que ainda não se graduou (fato corriqueiro na sua biografia), ele está pronto para realizar uns “exames difíceis” e ser aceito para uma pós-graduação em aniquilação de caracteres em alguma universidade de Nova Iorque.
Ao ouvir e ver o candidato, ao longo dessas duas semanas e no debate de ontem à noite, eu pude identificar facilmente todos os truques e estratégias patenteados pelo partido Republicano Americano. Pasmem vocês, nos últimos anos, essa mensagem rasa de ódio, preconceito, racismo, coberta por camadas recentes de fé e devoção cristã, tem sido prontamente empacotada e distribuída para o consumo do pobre povo daquela nação, pela mídia oficial que gravita ao seu redor.
Para quem, como eu, vive há 22 anos nos EUA, não resta mais nenhuma dúvida. Quem quer que tenha definido a estratégia da campanha do candidato Serra decidiu importar para a disputa presidencial brasileira tanto a estratégia vergonhosa e peçonhenta da “vitória a qualquer custo”, como toda a truculência e assalto à verdade que têm caracterizado as últimas eleições nos Estados Unidos. Apelando invariavelmente para o que há de mais sórdido na natureza humana, nessa abordagem de marketing político nem os fatos, nem os dados ou as estatísticas, muito menos a verdade ou a realidade importam. O objetivo é simplesmente paralisar o candidato adversário e causar consternação geral no eleitorado, através de um bombardeio incessante de denúncias (verdadeiras ou não, não faz diferença), meias calúnias, ou difamações, mesmo que elas sejam as mais absurdas possíveis.
Assim, de repente, Obama não era mais americano, mas um agente queniano obcecado em transformar a nação americana numa república islâmica. Como lá, aqui Dilma Rousseff agora é chamada de búlgara, em correntes de emails clandestinos. Como os EUA de Bill Clinton, apesar de o país ter experimentado o maior boom econômico em recente memória, foi vendido ao povo americano como estando em petição de miséria pelo então candidato de primeira viagem George Bush.
Aqui, o Brasil de Lula, que desfruta do melhor momento de toda a sua história, provavelmente desde o período em que os últimos dinossauros deixaram suas pegadas no que é hoje o município de Sousa, na Paraíba, passa a ser vendido como um país em estado de caos perpétuo, algo alarmante mesmo. Ao distorcer a verdade, os fatos, os números e, num último capítulo de manipulação extremada, a própria percepção da realidade, através do pronto e voluntário reforço do bombardeio midiático, que simplesmente repete o trololó do candidato (para usar o seu vernáculo favorito), sem crítica, sem análise, sem um pingo de honestidade jornalística, busca-se, como nos EUA de George Bush e do partido Republicano, vender o branco como preto, a comédia como farsa.
Não interessa que 26 milhões de brasileiros tenham saído da miséria. Nem que pela primeira vez na nossa história tenhamos a chance de remover o substantivo masculino “pobre” dos dicionários da língua portuguesa. Não faz a menor diferença que 15 milhões de novos empregos tenham sido criados nos últimos anos. Ou que, pela primeira vez desde que se tem notícia, o Brasil seja respeitado por toda a comunidade internacional. Para o candidato da oposição esse número insignificante de empregos é, na sua realidade marciana, fruto apenas de uma maior fiscalização que empurrou com a barriga do livro de multas 10 milhões de pessoas para o emprego formal desde o governo do imperador FHC.
Nada, nem a realidade, é capaz de impressionar os fariseus e arautos que estão sempre prontos a enxovalhar o sucesso desse país de mulatos, imigrantes e gente que trabalha e batalha incansavelmente para sobreviver ao preconceito, ao racismo, à indiferença e à arrogância daqueles que foram rejeitados pelas urnas e vencidos por um mero torneiro mecânico que virou pop star da política internacional. Nada vai conseguir remover o gosto amargo desse agora já fato histórico, que atormenta, como a dor de um membro fantasma, o ego daqueles que nunca acreditaram ser o povo brasileiro capaz de construir uma nação digna, justa e democrática com o seu próprio esforço. Como George Bush ao Norte, o seu clone do hemisfério sul não governa para o povo, nem dele busca a sua inspiração. A sua busca pelo poder serve a outros interesses; o maior deles, justiça seja feita, não é escuso, somente irrelevante, visto tratar-se apenas do arquivo morto da sua vaidade, o maior dos defeitos humanos, já dizia dona Lygia, minha santa avó anarquista. Para esse candidato, basta-lhe poder adicionar no currículo uma linha que dirá: Presidente do Brasil (de tanto a tanto). Vaidade é assim, contenta-se com pouco, desde que esse pouco venha embalado num gigantesco espelho.
Voltando à estratégia americana de ganhar eleições, numa segunda fase, caso o oponente sobreviva ao primeiro assalto, apela-se para outra arma infalível: a evidente falta de valores cristãos do oponente, manifestada pela sua explícita aquiescência para com o aborto; sua libertinagem sexual e falta de valores morais, invariavelmente associada à defesa do fantasma que assombra a tradição, família e propriedade da direita histérica, representado pela tão difamada quanto legítima aprovação da união civil de casais homossexuais. Nesse rolo compressor implacável, pois o que vale é a vitória, custe o que custar, pouco importa ao George Bush tupiniquim que milhares de mulheres humildes e abandonadas morram todos os anos, pelos hospitais e prontos-socorros desse Brasil afora, vítimas de infecções horrendas, causadas por abortos clandestinos.
George Bush, tanto o original quanto o genérico dos trópicos, provavelmente conhece muitas mulheres do seu meio que, por contingências e vicissitudes da vida, foram forçadas a abortos em clínicas bem equipadas, conduzidas por profissionais altamente especializados, regiamente pagos para tal prática. Nenhum dos dois George Bushes, porém, jamais deu um plantão no pronto-socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo e testemunhou, com os próprios olhos e lágrimas, a morte de uma adolescente, vítima de septicemia generalizada, causada por um aborto ilegal, cometido por algum carniceiro que se passou por médico e salvador.
Alguns amigos de longa data, que também vivem no exterior, andam espantados com o grau de violência, mentiras e fraudes morais dessa campanha eleitoral brasileira. Alguns usam termos como crime lesa pátria para descrever as ações do candidato do Brasil que não deu certo, seus aliados e a grande mídia.
Poucos se surpreenderam, porém, com o fato de que até o atentado da bolinha de papel foi transformado em evento digno de investigação no maior telejornal do hemisfério sul (ou seria da zona sul do Rio de Janeiro? Não sei bem). No caso em questão, como nos EUA, a dita grande imprensa que circunda a candidatura do George Bush tupiniquim acusa o Presidente da República de não se comportar com apropriado decoro presidencial, ao tirar um bom sarro e trazer à tona, com bom humor, a melhor metáfora futebolística que poderia descrever a farsa. Sejamos honestos, a completa fabricação, desmascarada em verso, prosa e análise de vídeo, quadro a quadro, por um brilhante professor de jornalismo digital gaúcho.
Curiosamente, a mesma imprensa e seus arautos colunistas não tecem um único comentário sobre a gravidade do fato de ter um pretendente ao cargo máximo da República ter aceitado participar de uma clara e explicita fabricação. Ou será que esse detalhe não merece algumas mal traçadas linhas da imprensa? Caso ainda estivéssemos no meio de uma campanha tipicamente brasileira, o já internacionalmente famoso “atentado da bolinha de papel” seria motivo das mais variadas chacotas e piadas de botequim. Mas como estamos vivendo dentro de um verdadeiro clone das campanhas americanas, querem criminalizar até a bolinha de papel. Se a moda pega, só eu conheço pelo menos uns dez médicos brasileiros, extremamente famosos, antigos colegas de Colégio Bandeirantes e da Faculdade de Medicina da USP, que logo poderiam estar respondendo a processos por crimes hediondos, haja vista terem sido eles famosos terroristas do passado, que se valiam, não de uma, mas de uma verdadeira enxurrada, dessas armas de destruição em massa (de pulgas) para atingir professores menos avisados, que ousavam dar de costas para tais criminosos sem alma .
Valha-me Nossa Senhora da Aparecida — certamente o nosso George Bush tupiniquim aprovaria esse meu apelo aos céus –, nós, brasileiros, não merecemos ser a próxima vítima do entulho ético do marketing eleitoral americano. Nós merecemos algo muito melhor. Pode parecer paranoia de neurocientista exilado, mas nos EUA eu testemunhei como os arautos dessa forma de fazer política, representado pelo George Bush original e seus asseclas, conseguiram vender, com grande sucesso e fanfarra, uma guerra injustificável, que causou a morte de mais de 50 mil americanos e centenas de milhares de civis iraquianos inocentes.
Tudo começou com uma eleição roubada, decidida pela Corte Suprema. Tudo começou com uma campanha eleitoral baseada em falsas premissas e mentiras deslavadas. A seguir, o açodamento vergonhoso do medo paranóico, instilado numa população em choque, com a devida colaboração de uma mídia condescendente e vendida, foi suficiente para levar a maior potência do mundo a duas guerras imorais que culminaram, ironicamente, no maior terremoto econômico desde a quebra da bolsa de 1929.
Hoje os mesmos Republicanos que levaram o país a essas guerras irracionais e ao fundo do poço financeiro acusam o Presidente Obama de ser o responsável direto de todos os flagelos que assolam a sociedade americana, como o desemprego maciço, a perda das pensões e aposentadorias, a queda vertiginosa do valor dos imóveis e a completa insegurança sobre o que o futuro pode trazer, que surgiram como conseqüência imediata das duas catastróficas gestões de George Bush filho.
Enquanto no Brasil criam-se 200 mil empregos pro mês, nos EUA perdem-se 200 mil empregos a cada 30 dias. Confrontado com números como esses, muitos dos meus vizinhos em Chapel Hill adorariam receber um passaporte brasileiro ou mesmo um visto de trabalho temporário e mudar-se para esse nosso paraíso tropical. Eles sabem pelo menos isto: o mundo está mudando rapidamente e, logo, logo, no andar dessa carruagem, o verdadeiro primeiro mundo vai estar aqui, sob a luz do Cruzeiro do Sul!
Fica, pois, aqui o alerta de um brasileiro que testemunhou os eventos da recente história política americana em loco. Hoje é a farsa do atentado da bolinha de papel. Parece inofensivo. Motivo de pilhéria. Eu, como gato escaldado, que já viu esse filme repulsivo mais de uma vez, não ficaria tão tranqüilo, nem baixaria a guarda. Quem fabrica um atentado, quem se apega ou apela para questões de foro íntimo, como a crença religiosa (ou sua inexistência), como plataforma de campanha hoje, é o mesmo que, se eleito, se sentirá livre para pregar peças maiores, omitir fatos de maior relevância e governar sem a preocupação de dar satisfações aqueles que, iludidos, cometeram o deslize histórico de cair no mais terrível de todos os contos do vigário, aquele que nega a própria realidade que nos cerca.
Aliás, ocorre-me um último pensamento. A única forma do ex-presidente (Imperador?) Fernando Henrique Cardoso demonstrar que o seu governo não foi o maior desastre político-econômico, testemunhado por todo o continente americano, seria compará-lo, taco a taco, à catastrófica gestão de George Bush filho. Sendo assim, talvez o candidato Serra tenha raciocinado que, como a sua probabilidade de vitória era realmente baixa, em último caso, ele poderia demonstrar a todo o Brasil quão melhor o governo FHC teria sido do que uma eventual presidência do George Bush genérico do hemisfério sul. Vão-se os anéis, sobram os dedos. Perdido por perdido, vamos salvar pelo menos um amigo. Se tal ato de solidariedade foi tramado dentro dos circuitos neurais do cérebro do candidato da oposição (truco!), só me restaria elogiá-lo por este repente de humildade e espírito cristão.
Ciente, num raro momento de contrição, de que algumas das minhas teorias possam ter causado um leve incômodo, ou mesmo, talvez, um passageiro mal-estar ao candidato, eu ousaria esticar um pouco do meu crédito junto a esse grande novo porta-voz do cristianismo e fazer um pequeno pedido, de cunho pessoal, formulado por um torcedor palmeirense anônimo, ao candidato da oposição. O pedido, mais do que singelo, seria o seguinte:
Candidato, será que dá pro senhor pedir pro governador Goldman ou pro futuro governador Dr. Alckmin para eles não desligarem a luz da Arena Barueri na semana que vem? Como o senhor sabe, o nosso Verdão disputa uma vaguinha na semifinal da Copa Sulamericana e, aqui entre nós, não fica bem outro apagão ser mostrado para todo esse Brazilzão, iluminado pelo Luz para Todos, do Lula. Afinal de contas, se ocorrer outro vexame como esse, o povão vai começar a falar que se o senhor não consegue nem garantir a luz do estádio pro seu time do coração jogar, como é que pode ter a pretensão de prometer que vai ter luz para todo o resto desse país enorme? Depois, o senhor vem aqui e pergunta por que eu vou votar na Dilma? Parece abestalhado, sô!
* Miguel Nicolelis é um dos mais importantes neurocientistas do mundo. É professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e criador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, (RN). Em 2008, foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina.
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